Cientistas brasileiros buscam regenerar córnea e criar alternativa ao transplante

Cientistas brasileiros buscam regenerar córnea e criar alternativa ao transplante

Pesquisadores da UFG testam terapia celular para tratar problemas oculares e reduzir fila de procedimento 

Veja Saúde Larissa Beani  13 jul 2026

 

Segundo dados do Ministério da Saúde, 33 mil brasileiros aguardam um transplante de córnea. A demanda pelo procedimento — que pode ser necessário para corrigir problemas oculares congênitos, traumas e até infecções — aumentou desde a pandemia, quando o tratamento de diversos casos precisou ser adiado. 

Para a ajudar a driblar o problema e, no futuro, oferecer novas opções de tratamento para os pacientes, uma equipe multidisciplinar de cientistas brasileiros está desenvolvendo formas de usar terapia celular para corrigir tecidos oculares e, assim, diminuir a fila de espera. 

Essa é a proposta do projeto Cell4Vision, que conta com a participação de engenheiros, especialistas em nanotecnologia e profissionais da saúde do Centro de Referência em Oftalmologia (Cerof) da Universidade Federal de Goiás (UFG). 

“Nosso objetivo é gerar alternativas aos transplantes tradicionais de córnea, criando curativos ou tratamentos biológicos personalizados e escaláveis”, explica a farmacêutica e bioquímica Marize Valadares, professora da UFG que lidera o projeto. 

De olho no futuro
Os pesquisadores pretendem desenvolver soluções para problemas localizados em diferentes regiões da córnea e da retina. 

Na superfície da córnea, por exemplo, as células epiteliais podem ser lesionadas por acidentes, como queimadura pelo contato com faíscas ou pomadas modeladoras, por exemplo. 

Em laboratório, o que os cientistas estão tentando fazer é retirar as células danificadas e cultivar novas e saudáveis em uma biomembrana que será aplicada ao olho do paciente como um “curativo”.

Quando a lesão é mais grave pode acabar atingindo a camada mais interna da córnea, onde vivem as células endoteliais. “Problemas por ali geralmente levam à cegueira“, afirma Valadares. 

Segundo a cientista, o projeto já conseguiu isolar e multiplicar essas células em laboratório — e a boa notícia é que este é um tecido altamente escalável. “Uma única córnea doadora poderia gerar até 100 doses de tratamento”, estima a farmacêutica. 

Já na retina, o desafio é reproduzir as células epiteliais pigmentadas da retina (RPE), que absorvem a luz e cuidam da nitidez da nossa visão, entre outras funções. 

“Nosso projeto cultiva essas células para repovoar retinas danificadas. Estamos estudando seu comportamento para tratar tecidos doentes”, explica.

Como deve funcionar
Por enquanto, o projeto está em fase laboratorial, ou seja, ainda não está sendo estudado em humanos. 

“Nós já dominamos as técnicas de isolamento, cultivo e congelamento das células, e agora iniciaremos os testes com a bioimpressora para definir quais biomembranas causam menor resposta inflamatória e maior taxa de sucesso“, detalha Valadares. 

As biomembranas são uma base feita com polímeros sintéticos, fibrina ou colágeno, onde as células humanas conseguem se organizar e prosperar, cumprindo suas funções e, como se esperar, restabelecendo  a saúde do paciente. 

A expectativa é consolidar os resultados da fase laboratorial em até 2 anos. O projeto é beneficiário da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), empresa pública vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. 

“Nosso objetivo é impulsionar projetos disruptivos que ajudem o país a superar desafios atuais e futuros — temos muito potencial dentro das universidades brasileiras”, afirma Joana Meirelles, superintendente da Área de Saúde e Transformação Digital da Finep. 

 

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“O projeto utiliza equipamentos de ponta para fabricar essas estruturas, como as bioimpressoras 3D, que permitem determinar com exatidão a espessura, o tamanho e a porosidade ideal para que as células recebam nutrientes”, explica a professora da UFG. 

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