“Prescrição Social” é tema de intervenção e pesquisa em Portugal

Melhorar o sistema de saúde com participação comunitária

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A Prescrição Social permite conectar os usuários dos cuidados de saúde primários com os recursos de apoio existentes na comunidade. Consiste em uma intervenção interdisciplinar que reforça e estabelece novas pontes entre a academia, o setor da saúde e o setor social.

Facilitar a resposta aos problemas e necessidades sociais dos usuários, com o objetivo de melhorar a sua saúde e bem-estar e otimizar a utilização dos serviços de saúde do Serviço Nacional de Saúde de Portugal, são alguns dos objetivos do grupo de pesquisa NOVA GIPS. A Escola Nacional de Saúde Pública da Universidade NOVA de Lisboa (ENSP-NOVA), em parceira com o ACES Lisboa Central, que engloba a USF da Baixa e a USF Almirante, lançaram em 2019 o NOVA Grupo de Investigação em Prescrição Social (NOVA GIPS), que tem como missão fortalecer a investigação, implementação, avaliação e disseminação da Prescrição Social em Portugal.

Ou seja, potenciar a atuação do Serviço Social na saúde, por um lado, sensibilizando os profissionais de saúde para o papel do assistente social na resolução de problemas sociais potencialmente nocivos para a saúde dos usuários e, por outro lado, promover a criação de parcerias com o sector comunitário, é a resposta ao crescente problema da desigualdade em saúde.

Assim, o NOVA GIPS pretende promover e apoiar as atividades relacionadas com a Prescrição Social no país, tendo como base um trabalho interdisciplinar que reforça e estabelece novas pontes entre a academia, o setor da saúde e o setor social. O grupo de investigação é coordenado por Sónia Dias, Professora da ENSP-NOVA e por Cristiano Figueiredo, médico de família e coordenador do Projeto de Prescrição Social da USF Baixa.

Com o objetivo de organizar uma rede nacional de parceiros, composta por profissionais de saúde, assistentes sociais, representantes do poder local e do setor social, solidário e voluntário, representantes da comunidade, acadêmicos, financiadores, pacientes e cidadãos, para juntos compartilhar conhecimento e melhores práticas, para apoiar a prescrição social em nível local e nacional e para informar investigações e avaliações de excelência, o grupo já tem vários estudos que estão a decorrer.

A investigação irá debruçar-se sobre várias questões como, o impacto da prescrição social na saúde dos utentes, na utilização e prestação de cuidados e o seu custo-benefício, como se desenvolve o processo da sua implementação e quais as barreiras e fatores de sucesso, na perspectiva de profissionais e gestores de saúde, bem como dos parceiros sociais e usuários.

Sónia Dias refere que “associado ao enorme entusiasmo na iniciativa da prescrição social e no seu potencial para beneficiar a saúde e o bem-estar dos cidadãos, mas também o Serviço Nacional de Saúde, num momento de crescente complexidade das necessidades em saúde e sociais, é essencial apoiar investigação e avaliação de grande qualidade, que nos permita conhecer o que está a funcionar bem na prescrição social, como poderá crescer, o que pode melhorar e qual o seu real impacto”. 

Por outro lado, Cristiano Figueiredo salienta que “apesar da prescrição social ser uma ideia simples, no seu conjunto resulta numa intervenção em saúde extremamente complexa, porque mobiliza uma grande variedade de respostas do terceiro setor, institutos públicos e autarquias, com especificidades locais e variações temporais, que tornam o planeamento e a avaliação da prescrição social muito desafiantes”.

Como funciona

A prescrição social tem início no consultório médico da USF, após avaliação por parte do médico de família, psicólogo ou enfermeiro de família, o usuário pode ser referenciado na plataforma na intranet criada para o efeito. Nesta plataforma, o profissional de saúde quando se depara com a presença de um problema social, tem a oportunidade de reportar esse problema e encaminhar o usuário para a prescrição social.

Depois de reportado o problema, entra em jogo o trabalho de assistência social, também fornecido na mesma USF e complementado com os parceiros sociais – que promovem a resolução do problema, facilitando a chegada do usuário ao que necessita.

As questões sociais são muito importantes para a saúde, ter saúde não passa só por não estar doente, o bem-estar, qualidade de vida e integração sociais são fatores muito importantes.

Prescrição Social, a origem

Com origem no Reino Unido por volta dos anos 2000, esta intervenção encontra-se hoje amplamente disseminada nos Centros de Saúde, um crescimento apoiado pelo governo inglês desde 2019. Apesar da sua recente implementação, a Prescrição Social é uma intervenção já implementada em outros países, como a Austrália e o Canadá.

Em Portugal, a Prescrição Social teve início em 2018, em Lisboa, com a implementação de um projeto piloto na USF da Baixa e, em maio de 2019, na USF Almirante (freguesias de Arroios e Penha de França). Nos primeiros 15 meses de implementação, 147 usuários tiveram consulta de Prescrição Social, após terem sido referenciados por profissionais de saúde destas unidades de saúde. Os usuários, de todas as faixas etárias, são mais de metade do sexo feminino (62%) e 42% são migrantes, de mais de 17 nacionalidades. Os principais motivos de referenciação são o isolamento social, acesso a benefícios sociais, sedentarismo, integração social de migrantes, saúde mental e dependência funcional. A Dra. Andreia Coelho, assistente social do projeto Prescrição Social da USF Baixa, explica “que conhecendo bem a comunidade envolvente, a prescrição social permite uma maior proximidade entre os parceiros e uma melhor articulação no âmbito do serviço social”.

As respostas às necessidades dos usuários foram promovidas através de 24 parceiros sociais – Associações, Instituições Particulares de Solidariedade Social e Juntas de Freguesia – e traduziram-se, por exemplo, em aulas na Universidade Sénior, cursos de português para migrantes, apoio na procura de emprego e formação, integração em centros de dia.

Os coordenadores acreditam que “o NOVA GIPS pode ajudar a apoiar o planejamento e avaliação de projetos de Prescrição Social em Portugal, para que este movimento social beneficie mais cidadãos e abranja mais unidades de saúde”. Esperamos que o fortalecimento desta intervenção em Portugal possa promover cuidados mais equitativos e centrados nas necessidades dos usuários e suas famílias, construir comunidades mais solidárias e resilientes, e colaborar para a criação de soluções que apoiem a sustentabilidade do SNS”.

Fonte: https://www.ensp.unl.pt/prescricao-social-na-resposta-aos-desafios-da-pandemia-nova-grupo-de-investigacao-em-prescricao-social/


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